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Permissão de uso da Casa de Cultura Fazenda Roseira e 12º Arraial Afro Julino

arraial abraço

(foto: Roda de Jongo da Comunidade Jongo Dito Ribeiro)

O mês de julho para nossa comunidade é sempre muito especial , é o mês do nosso aniversário e para comemorar sempre preparamos uma festa cheia de carinho que é o Arraial Afro Julino.
Esse ano o a comunidade comemorou uma grande vitória, a conquista merecida da Permissão de uso da Casa de Cultura Fazenda Roseira pela prefeitura de Campinas, para entender melhor vale ler o texto emocionante   que nossa querida jongueira Vanessa Dias escreveu ao receber a boa notícia.

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(foto: Vanessa Dias)
“Salve Salve Pessoas..
Estou aqui para compartilhar algo muito importante não só para a Comunidade Negra de Campinas mas para todos os coletivos e organizações que tem em sua missão a transformação social. Desculpem se o texto está grande, mas não consegui conter a emoção…
“Como eu cheguei aqui
Nem sei… eu caí nessa roda de jongo
Vovô Dito sabia de tudo
Vovô Dito mandou me buscá..”

Há 07 anos a Comunidade Jongo Dito Ribeiro liderada principalmente por mulheres negras toma uma decisão, a qual transformou da forma mais profunda e intensa o caminhar deste coletivo. Não sabíamos nada sobre ocupação, mas optamos, diante de uma comunidade externa extremamente carente de cultura popular e preta (afinal estamos do lado de Ká da Anhanguera, onde sabemos a dor e a delícia de ser preto, pobre e da periferia da cidade)… optamos em ocupar um espaço, na época, já legalmente um Equipamento Público do município, mas que estava sendo depredado.
Tal depredação, nós já sabíamos de onde vinha, afinal, nossa liderança maior, Alessandra Ribeiro, tratou logo de registrar tudo o que via neste espaço chamado Fazenda Roseira e que carinhosamente, ao ocuparmos, não tínhamos dúvida que deveria chamar-se Casa de Cultura Fazenda Roseira, pois o que queríamos era mesmo fazer Cultura, e não qualquer cultura, mas a cultura afro-brasileira, a cultura dos nossos ancestrais.
E junto nesta empreitada, embarcaram várias parceiras e parceiros. Várias amigas e amigos…. familiares.. colegas… enfim. E fomos caminhando segurando um na mão do outro, porque já há alguns anos, bem antes de aceitarmos esta missão do Universo, já sabíamos a importância de segurarmos um na mão do outro para que pudéssemos realizar tudo aquilo que não é possível fazer sozinho. E mesmo sem saber muitas vezes pra onde correr.. Porque muitos enfrentamentos aconteceram ao longo destes 07 anos.
Foram desde “capangas” literalmente armados, meses sem energia elétrica, anos sem água encanada, até gente querendo levar portas e janelas do casarão ou até mesmo querendo roubar um pedacinho de terra com a desculpa de que a medição poderia estar errada. Foram muitos medos que também enfrentamos, medo de não poder mais estar aqui, medo de não conseguir apoio…. medo de não conseguir resistir.
Mas as rodas de jongo, os festejos, as reuniões de articulação, os projetos com os mais velhos, os projetos com os mais novos, as discussões sobre tecnologia, os debates sobre mulheres, sobre mulheres negras, as feijoadas de resistência dos parceiros e nossa, as várias formas de salvaguardar o jongo, de pensar o jongo, as discussões políticas, as várias formas de resistência no espaço, as rodas de capoeira, as aulas de dança do ventre, as aulas de dança de salão, a aulas de curimba, as vivências de teatro, a recepção das escolas de todo o município, as ações ambientais, os trabalhos com as universidades, as atividades de costura, as tentivas de diálogos com o poder público, as conversas na cozinha, os batuques não só na Senzala, mas principalmente no salão principal da Casa Grande, as articulações da Juventude Jongueira e da Juventude de Terreiro, as várias formas de resistir aos furtos desenfreados, aos preconceitos por praticar uma manifestação ancestral. Tudo isso e muito mais foram acontecendo e fazendo-nos trilhar um caminho com muitas pedras, mas com muito mais Roseiras lindas. Porque estar aqui é também colher muitas rosas, ou melhor, é ter todo um jardim florido na primavera, todos os dias, não importando a estação que estamos. Porque a cada um que entra aqui e sai compreendendo o nosso universo preto com um outro olhar, me deixa com a sensação de estar em um Jardim imenso e lindo.
E hoje, no dia 07 do 07, prestes a completar 07 anos neste espaço recebemos a notícia de que seremos reconhecidos oficialmente pelo município como cuidadores dele… A PERMISSÃO DE USO chegará para toda a Comunidade Jongo Dito Ribeiro.
E é por tudo isso que queremos que todas e todos que recebem este texto estejam conosco amanhã no Salão Azul, 4º Andar, às 17h, na Prefeitura Municipal de Campinas para a Solenidade da Entrega da Permissão de Uso da Fazenda Roseira para a Comunidade Jongo Dito Ribeiro.
E o povo da Comunidade Jongo Dito Ribeiro deve estar na Fazenda Roseira às 15h30, pois temos que estar na Prefeitura às 16h.

Que os nossos Ancestrais continuem nos fortalecendo na fé e coragem pra continuar a caminhada….
“Trabalhei suei sangrei
Do cativeiro e das correntes com fé eu me libertei
Corri na mata, pé descalço estrela guia
Vou encontrar Palmares, ver nascer um novo dia…”
“E quando eu chego na Roseira… Pisa na Tradição..
E Saravá Dito Ribeiro… Pisa na Tradição”
Beijo
AXÉ ”

permissao(foto: Alessandra Ribeiro e o Prefeito Jonas Donizete)

Fomos ao gabinete do Prefeito Jonas Donizete (PSB) comparecer a solenidade junto com a comunidade e amigos, e lá recebemos outra boa noticia, o vereador Gustavo Petta (PcdoB) anunciou que a Deputada Lecy Brandão vai destinar 200 mil reais em emenda parlamentar para a Casa de Cultura Fazenda Roseira.

Alegria em dobro! Acreditamos muito em uma politica que vai além dos partidos politicos mas que consegue entender a dimensão histórica de seus agentes envolvidos , que consegue entender que para salvaguardar é preciso meios.

lecy(Foto: Leci Bradão na feijoada das Marias do Jongo 2015)

Essa nossa grande festa contou com a presença de Alexandre Santini da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura que veio prestigiar nossa feira de economia solidária e aproveitou e conheceu mais de perto a juventude jongueira e falou em roda aberta de convesa sobre as politicas da SCDC.

Nas palavras de Santini:

Uma festa, uma feira de economia solidária, um espaço de debates, de trocas, celebrações e encontros. Este ano, o Arraial Afro-Julino da Casa de Cultura Fazenda Roseira, em Campinas (SP) comemorou a conquista da cessão definitiva do território da Fazenda, a tomada da Casa-Grande pela Senzala, por esta comunidade liderada por mulheres, inspiradas na liderança ancestral de Dito Ribeiro, pra seguir batendo seus Tambus e Caxambus na Batida do Jongo.
Tivemos ainda, entre uma apresentação e outra da maratona de 12 horas de programação cultural, a oportunidade de debater sobre os editais da Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, e conhecer redes como a Associação de Rodas de Samba de São Paulo e a Juventude Jongueira, que já entenderam que as políticas culturais voltadas para a articulação e mobilização de redes lhe dizem respeito diretamente, pois falam para a base da sociedade.

E teve Bolinho de Feijoada, Caldinho Nigeriano, Quentão, Cerveja Gelada, Sanduíche de Pernil, tudo do bom e do melhor nas barraquinhas das comidas preparadas pelas organizações, terreiros, pontos de cultura e coletivos culturais da região.

Se a Alegria é a Prova dos Nove, a Roseira nos brinda com a possibilidade de uma vida mais simples, mais bonita e transformadora. “Eu pego a sua mão na minha / Para que junto possamos fazer / Aquilo que eu não posso fazer sozinho”. Saravá! ”

19986928325_052962ebb6_z(Foto: Juventude Jongueira com Santini e Alessandra Ribeiro)

Nesse ano durante o Arraial realizamos registros de depoimentos de grupos culturais, estórias de vídeo entre outros, para integração a E- Conferência Multiculturalismo e  Multilinguismo no Mundo Digital 2015, do qual Alessandra Ribeiro também é uma das organizadoras.

Saiba mais no link :

http://www.culturadigitalcampinas.info/conferencias/index.php/culturallab/MMMD2015/index

Tivemos a presença de muitos grupos artísticos, comunidades de culturas tradicionais, coletivos de comunicação a presença de autoridades e a presença de diversas pessoas da nossa cidade de Campinas e outros lugares do estado e do país que compareceram em peso e fez pisar nesse chão cerca de 5 mil pessoas.

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(Foto: os nossos mais velhos momento do terço a São Benedito)IMG_3671

(Foto: nossos mais novos carregando a imagem de São Benedito)

IMG_9261(Foto: Comunidade Jongo Dito Ribeiro no 12º Arraial Afro Julino)

  IMG_9429(Foto: apresentação do grupo Ilu Oba de Min)

IMG_3856   (Apresentação do grupo Urucungos Puitas e Quijengues)

mirACEMA(Foto: despedida do Arraial com o Jongo de Miracema)

Nós agradecemos imensamente e de coração a todos e todas que estiveram envolvidos no preparo e na comemoração dessa festa. Ano que vem tem mais.

Confira as fotos do arraial em nosso flirck :

https://flic.kr/s/aHskgccS54

Confira o video sobre a permissão de uso feito pelo coletivo Kilombagem: https://youtu.be/BLcbGue3d_k